A grama estava molhada e a terra transformara-se em lama. Os motoristas que se aventuravam conseguiam apenas afundar ainda mais seus carros no barro. No fim da festa, quando anuciaram sua placa, ela imaginou que teria que ser mais um personagem do rally.
"Ahá! Você que anunciou meu carro??" iniciou uma conversa amistosa. "Pois é..." foi a resposta do homem encostado em seu carro. "Mas qual o problema? Não tem mais nenhum carro aqui." ela quis tentar adiar o desafio, tentar esperar que a grama secasse um pouco mais. "Não. Não tem nenhum problema." e pela expressão no rosto do rapaz ela percebeu que o assunto não era o que ela havia pensado. Porém não sabia o que dizer. O silêncio inconveniente foi se formando, potencializado pela intenção do rapaz que era quase visível. "Era pra te dar um beijo." ele disse ao se aproximar e tocar-lhe a mão. "O que é que esse cara está achando que é?!?" ela pensou, mas sem querer ser mal educada disse apenas "Ahhhhhhhh... desculpa mas não vai rolar...". enquanto tentou se afastar. O rapaz segurou sua mão com mais força e não a deixou ir. "Por que?" perguntou ao se aproximar mais. Apesar da escuridão, ela podia enxergar suas pupilas. Algo na voz ou no rosto dessa pessoa que a segurava a deixou com medo. Seu olhar parecia dizer que ele não a deixaria ir embora dali. Lembrava-lhe que era menor e mais fraca. "Você é casada?" palavras geladas e um meio sorriso que não era acompanhado pelo olhar. Ela estava detestando e precisava acabar com essa conversa imediatamente. "Sou. E ele está logo alí então é melhor a gente sair daqui agora." Tentou puxar sua mão mais rapidamente, mas se surpreendeu ao sentir que ele a puxou para sí com mais força e segurou seu braço quase violentamente. Olhou-a por um instante infinito, a desafiava, parecia indagar "e se eu não quiser te soltar?", "Ele não está aqui agora.", zombou. O mundo girou com a raiva explodindo em seu peito. Humilhada e impotente, o que poderia dizer ou fazer se ele não soltasse? Tentou se desvencilhar novamente e dessa vez ele permitiu que se afastasse. Havia alguem chegando.
"Moço, me ajuda a tirar o carro..." ela pediu.
"Vê se não vacila mais!" a frase rasgou o ar, quando na verdade "Não me deixe sozinha" era o que queria pedir. Mas as palavras se transformaram em algum ponto entre o coração, o cérebro e os lábios. Bem naquele canto em que o medo de ser uma pessoa chata e grudenta mora junto com a frase traumática, "você está me sufocando"...
E a moral da história?
Não tem, esse é meu blog, só serve pra desabafar...